#serviçopúblico

Dente por dente, Olho por olho

sexta-feira, junho 23, 2017

O que é que nós aprendemos com os últimos acontecimentos em Pedrógão Grande? Nada. Ou - para não ser pessimista - muito pouco. Talvez tenhamos apenas de reconhecer o óbvio: nas situações difíceis - e olhem que elas são muitas e várias ao longo da vida - ninguém sabe como actuar. Existam os códigos deontológicos que existirem. 

Continuo a pensar o mesmo: não acredito que a Judite tenha feito o que fez inadvertidamente. Talvez seja o facto de ter visto muita gente morrer(-me) nos últimos meses que está a dar-me uma leitura diferente da reportagem televisiva. É uma questão de sensibilidade. Ou a temos. Ou não a temos. É quase sempre uma questão de sensibilidade. Aquilo que nos separa - ou aproxima - dos outros. Se me compadeço com a morte do filho da Judite, então também entendo que me deva compadecer com a da pessoa que ela - e o repórter de imagem - (que isto nunca é trabalho de um só) - filmaram.

Ainda assim não deixo de desejar um jornalismo - que não é certamente para mim - mais provocador e menos paliativo. É esse jornalismo que para mim faz falta. É esse jornalismo que eu gostaria de ter feito. Existem estórias bonitas. Que merecem - e precisam de - ser contadas. Mas também existem realidades tristes. E chocantes. E o choque, às vezes, é a única forma de conseguirmos activar o outro. Mas, uma coisa é a chamada de atenção. Outra coisa é o sensacionalismo. 

Nós, portugueses, (tal como diz o João Miguel Tavares), somos bons a reagir, mas somos péssimos a agir. Concordo com ele, sem querer elaborar teorias da conspiração a respeito do que aconteceu. Correu mal. Muito mal mesmo. Basta-nos isso. 

Às vezes fico com a sensação de que as pessoas vivem, confortavelmente, em redomas de vidro. As mesmas pessoas que não aceitam as imagens de uma jornalista junto a um corpo, como não aceitam as imagens de uma criança síria, (Alan Kurdi), morta na praia. Percebo que as fotografias disponíveis na internet não provoquem tanta indignação. (embora para mim estejam equiparadas). Next. Um clique no rato. E só se vê o que se quer. Na televisão nacional não é assim tão simples evitar aquilo que para mim continua a ser a realidade e não um erro.

Muita gente se pronunciou. Uns contra. Outros a favor. Alguns que reconsideraram. Outros nem por isso. Uma pequena maioria atirou bitaites sem saber o que se passava. E uma grande porção não os assumiu com medo de represálias. E, provavelmente, com receio de contrariar a corrente. A moda instantânea. Não somos todos Judite. Vamos bater todos na Judite. Vi coisas tristíssimas. Textos sem nexo. E muitas palavras-pedra. Que revelaram o pior de nós, país. Como disse - e bem - uma amiga minha: a cultura do dente por dente, olho por olho. Caiu-se, sem se dar por isso, no outro extremo. Ultrapassou-se, sem misericórdia, a barreira que faz irmos de bestiais a bestas num abrir e fechar de olhos.

Acredito que outros, nos mesmos lugares, fariam o mesmo. E passariam pelo mesmo. Como escreve o repórter de imagem no terreno, Rui Caria, quando se vê, ouve e sente, tudo ao mesmo tempo numa sinestesia sem tréguas, é fácil errar. O mais certo é errar. Profissional, e pessoalmente, já aceitei desafios para os quais acreditava, ingenuamente, estar competentemente preparada... e no fim de contas não foi bem assim. Da mesma forma que já me desenrasquei, com sucesso, de grandes sarilhos sem saber como. As dúvidas surgem. Sempre. Mesmo ao fim de 30 anos de carreira. Tal como os erros. E isso não significa que as pessoas valham menos. Significa menos ainda que a única forma de avaliar o que se fez seja a violação pública da vida privada sem razão.

Fiquei perplexa com a reacção da comunidade jornalística. Com os dedos indicadores (em riste) dos "colegas" de profissão. Com o não darem, sequer, hipótese da Judite se defender. Este mundo de profissionais imaculados sempre me deu nojo. Estas pessoas que, observando o mundo e tendo a missão de o replicar, não admitem falhas, fazem-me pôr em causa a profissão que escolhi. Mostrássemos todos o que víamos pela frente e seríamos transparentes. E honestos. Não abutres. 

Portugal é muito isto. Um paíszinho. Onde a cultura do risco não tem lugar. Americans do it better. E não é preciso atravessar o atlântico. Trabalhei em Espanha. E em Espanha a estória é outra. Cá damos um tiro no pé e aparecem mais 4 ou 5 para continuar a atirar onde já se fez buraco. Lá, deste um tiro no pé, trata-se da ferida primeiro e certifica-se que sabes o que não fazer para não repetir o infortúnio. Atitudes diferentes que demonstram, claramente, que a vida de uma pessoa não se resume aos seus erros. Talvez devêssemos aprender com eles. Talvez devêssemos (tentar) ser um bocadinho mais flexíveis. Não sermos, ou ter a sensação de que não somos, foi o que me chocou mais durante estes dias. 

A Judite já tem dores suficientes. Pedrógão Grande também. Eu, se calhar, por não me conseguir esquecer dos meus mortos, não me choco com os que vejo, anónimos. Estamos todos a sofrer. Estamos todos a tentar continuar. O que é que nós aprendemos com os acontecimentos dos últimos dias? Que ninguém sabe nada de nada. Mesmo quem pensa saber.

#profissãoaventura

Judite sob Fogo

segunda-feira, junho 19, 2017


Sou jornalista. (o diploma diz que sim). Mas não tenho carteira profissional. Nunca fiz questão. E nunca se concretizou. Embora goste muito do que faço - ou escolhi fazer - nem sempre penso como um jornalista deveria pensar. Nem sempre me sinto capaz. Para exercer. (e reconheço isso). Gostava de vos dizer que a relação que mantenho com a profissão que escolhi é de amor, mas não é verdade. Amor. Sim. E às vezes ódio. Também. E não consigo explicar-vos exactamente porquê. 

O jornalismo para mim é algo mais complexo do que um título. É uma responsabilidade social. E por isso, tão difícil. (acho que muita gente não parte para a profissão com a motivação certa). Tenho sim, um diploma, caro, que atesta que estou apta a trabalhar na área. Mas... por muito que se estude, o jornalismo não se aprende nas universidades. E por muito que me custe admiti-lo, nem nas redacções. 


Editar não é uma tarefa fácil. (quem é do meio sabe que é a parte mais difícil). Vocês não imaginam as coisas - e as dúvidas - que nos passam pela cabeça. E as vezes que mudamos tudo. Do inicio... ao fim. Há dias em que somos manifestamente infelizes na forma que escolhemos para contar os factos. Mas, editar não é um trabalho individual. 

As reportagens são construídas por vários profissionais. O jornalista, o repórter e o editor de imagem. São 3 pessoas diferentes. Três cabeças. E três corações. Que podem ou não ter estado no local. Portanto, a responsabilidade das escolhas que se fazem não recair sob uma pessoa apenas. (mas quem dá a cara que se aguente). Para o bem. E para o mal.


As audiências, o apetite - voraz e descontrolado - do público e o agonizante meio em que os profissionais de comunicação se movem, distorcem, muitas vezes, aquilo que se conta. Não se faz jornalismo hoje em dia. (ou faz-se muito pouco). Contam-se coisas. E toda a gente acha que as pode contar. Às vezes, melhor do que os profissionais que estão encarregados de o fazer. (existem demasiados egos para um país tão pequeno). 

Particularmente, não aprecio o trabalho da Judite de Sousa, mas também não acho grave a reportagem que ela fez, no concelho de Pedrógão Grande, junto a um cadáver. Não considero desprestigiante para a classe, (qual classe?), relatar o óbvio. A realidade. Que pode incomodar a muitos. Chocante? Claro. Imenso. Fiquei com um nó na barriga e as lágrimas nos olhos. A isso chama-se compaixão. E empatia. E se a Judite não se tivesse posto ao lado de um corpo dificilmente nós teríamos sentido isso. E percebido a (real) dimensão da catástrofe.


Não me parece que a intenção dela fosse outra, senão a de ser honesta em relação ao que encontrou pela frente. E nós, mesmo que chocados, deveríamos estar agradecidos. Mais do que agradecidos. Sentidos. (se o jornalismo, de vez em quando, não ferir susceptibilidades, então não é jornalismo). Mas não. Ofender a profissional, e a pessoa, é mais fácil - e mais cobarde - do que chorar pelos outros.


Crescem a olhos vistos, as virgens ofendidas de Portugal. E isso assusta-me muito. Pessoas que não usam a vossa voz que têm para questionar coisas realmente importantes... Porque é que morreram tantas pessoas? Porque é que não se fecharam as estradas? Porque é que todos os anos ardem milhares de hectares no nosso país? Porquê? A sério que a Judite, e a reportagem, é o mais importante agora? A sério que utilizar um acontecimento trágico, da vida da pessoa, é a melhor forma de manifestar que não gostaram do trabalho? A sério que se fosse o teu filho, aí, não ias gostar faz algum sentido? Quem é a (maior) besta no meio disto tudo? A Judite, que em trabalho, encontrou cadáveres abandonados, ou quem usou factos que não deveria ter usado, para a criticar?


Não me admira nada que muitos profissionais tenham abandonado o jornalismo nos últimos anos. Não são só as condições precárias e a falta de salários. É a crítica sem sentido. Vinda também de colegas. E a falta de compaixão. De todos. (fotos do ©Paulo Pimenta).

#dossierequilibrio

Um dia de cada vez

sexta-feira, junho 16, 2017

A quimioterapia é uma droga. Ou melhor, são várias drogas combinadas entre si. Os ciclos - ou intervalos de dias - em que são administradas variam consoante o protocolo. E a forma como se comporta cada organismo. Eu, por exemplo, faço quimio oral diária, quimio subcutânea intra-muscular semanal e quimio intravenosa de 28 em 28 dias. Normalmente, a quimioterapia intravenosa é a mais severa. Os efeitos secundários que produz são prolongados e difíceis de suportar. 
(embora, hoje, a medicina já permita contorná-los com mais conforto).

Isto explica o facto do paciente oncológico não estar sempre em tratamento, embora passe a maioria do tempo entre tratamentos. (o que não é nada fácil). Física e psicologicamente. É uma espécie de 100 metros/barreiras. Mas com mais obstáculos. Quando não estão reunidas as condições para que a quimio seja (novamente) administrada, o protocolo é suspenso. É bastante normal que o corpo - devido a uma série de factores - leve mais tempo a reagir entre ciclos. O ideal é que o tempo de recuperação seja curto, ou demore o expectável, segundo os números. Nem sempre é possível. 
Não entre em pânico, se de repente, o seu corpo se resignar. 

A quimioterapia é aplicada porque é o tratamento com mais resultados comprovados na eliminação de células de rápido crescimento. O objectivo é parar a invasão. Principalmente nas situações agudas. Isso coloca-o a si sob pressão. Tente não ceder. E não se revolte por o seu corpo não estar a colaborar. (estão a agredi-lo! é normal que ele se queixe). Mesmo que existam previsões, ignore-as. Elas não vão ajudá-lo. Em nada. 

Um dia de cada vez. Foi a frase que repeti mais vezes. Para os outros. E para mim própria. Ainda repito. (sempre que me sinto tentada a esquecê-la). É uma ousadia muito grande vivermos como se isto nunca fosse terminar. O seu corpo responderá quando tiver que responder. Quanto mais o pressionar, mais tempo ele levará.

O problema dos prazos - e dos atrasos - passa por aqui, também: a quimio (ainda) não é um método selectivo. (sublinho "ainda" porque tenho esperança de que um dia venha a ser). A sua administração acaba também por afectar as células saudáveis. E quando se agride o que (também) é saudável, a recuperação é efectivamente mais lenta. No inicio do meu tratamento intensivo - o período mais delicado - a médica que nos acolheu no hospital falou-nos em 8 meses de tratamento. Se tudo corresse bem. A médica que me seguia, nas consultas, disse que o fazíamos em 6. Ao todo, foram 10. 
Com muitos compassos de espera pelo meio. Imprevistos. E sorte.

Actualmente, o protocolo que sigo não se baseia em previsões. É um ponto de interrogação. Simples. E bastante "ansiótico". Mas... por mais respostas que a gente queira, nalguns casos, o melhor é conformar-nos com não havê-las. Aceitar. E (tentar) viver assim. Mesmo que seja estranho para os outros. Aqueles que aparentemente vivem sem se debaterem com pontos de interrogação pelo caminho. Vão perguntar-lhe várias vezes quando é que acaba e, prepare-se, porque não vão disfarçar o incómodo que a falta de resposta pode causar. 

Apesar de se sentir pressionado para responder, não o faça. Não tem que o fazer. 
Não tem como fazê-lo. Um dia de cada vez. 

#avidacomoelaé

E tu, já comeste fruta hoje?

quarta-feira, junho 14, 2017

Cada vez que pego numa maçã, com casca, volto a colocá-la no sítio aonde estava. Tento esquecer-me. Enganar-me. E até distrair-me. Mas (ainda) não consigo. Aparentemente, a fruta natural não devia ser uma ameaça, mas é. Vai para dois anos. Dois anos! Há quase dois anos que não como uma maçã com casca. E tenho saudades.

O sistema imunitário - debilitado pela quimioterapia - tem um preço. Alto. Não comer maçãs com casca custa... uns cêntimos. Às vezes, consigo concentrar-me de tal forma que ouço a casca estalar entre os dentes. Se me esforçar muito, mesmo muito, sinto o sumo, ácido e fresco, escorrer-me pelos cantos da boca. Há comidas que me trazem memórias. Boas. As maçãs, em particular, trazem-me limites. E a pressão da escolha. (que não é bem escolha). Fosse esta vida fácil e a gente saberia, sem hesitar, o que fazer com as maçãs. Ou melhor, com as cascas.

O facto de eu não poder comer fruta com casca não é tema para assunto nacional. Duvido muito, até, que sensibilize os que podem comer fruta sem pensar. (a fruta que quiserem). Mas é exactamente aí que eu queria chegar. Às maçãs nas mãos de quem pode - quase - tudo. E não sabe. 

No geral, as pessoas reconhecem, com facilidade, todos os ajustes que a quimioterapia obriga a fazer. Eu não consigo esquecer-me que a faço. (vejo-a como algo que não é natural, apesar de tentar seguir em frente como se fosse). Mas, às vezes, tenho a sorte de me perder. Uns dois ou três minutos. Dois ou três minutos em que sou qualquer coisa que não, apenas, um depósito de droga(s). Esses dois ou três minutos são o melhor do meu dia.

O resto do tempo é passado a fazer opções. Tirar daqui... para pôr ali. Tirar dali... para pôr acolá. Ao fim de algum tempo torna-se mecânico. (ainda que frustrante). Não tenho a certeza do que vou dizer, (confirmem-mo se quiserem), mas penso que todas as pessoas que se debatem com o cancro - ou com outro tipo de doenças graves - acabam por desenvolver esquemas de relativização nos quais se apoiam. E isso talvez seja a única vantagem do diagnóstico em relação aos demais. A consciência.
(não a desperdice)

Tenho muito respeito por todas as dores. (há coisas, neste mundo, que levam uma pessoa ao inferno). Assim como vocês hão-de tê-lo pelas minhas maçãs com casca. Mas, meus amigos... felicidade é ter saúde. E má memória. O resto resolve-se sozinho. 

#avidacomoelaé

Pente Zero

segunda-feira, junho 12, 2017

Quando o cabelo me caiu, os meus amigos consolaram-me. Consolar é uma coisa boa quando não se pode fazer mais nada. Cada um à sua maneira. Não nos damos a todos - e com todos - em fatias iguais. Fizeram apostas. Muitas. Umas mais simpáticas. Outras mais sérias. Outras, ainda, que serviam o pretexto. Mas não a cara. 

As pessoas continuam a consolar-me. E às vezes eu acho isso estranho. Dizem que não me preocupe. Que vai crescer. Voltar ao normal. Mas não perguntam se eu quero que cresça. Ou se me sinto bem assim. Posso não querer. E daí? Sinto que todos esperam, sem razão, que voltemos ao que éramos. Aparentemente. Em tempo recorde. E sem vestígios de esforço. Como se isso fosse possível.

A careca nunca me incomodou. (vocês sabem disso). Ver-me livre dela não foi uma prioridade. (não podia ser). Não fiz disso uma urgência. Nos momentos de maior sofrimento, não devemos - nem podemos - imputar-nos mais dores. Já bastam aquelas, que por não haver opção, temos de suportar. Ninguém consegue ser inteligente debaixo de fogo. Consegui-lo, ou chegar perto de, pode ser um tremendo golpe de sorte. 

Quando penso em cabelo, penso também na forma como nos agarramos a pontas secas. No modo, dedicado, como cuidamos das coisas que nos podem ameaçar. Raspar o cabelo não é um desporto radical. Mas é libertador. Depois de se ter perdido muito, a única coisa que não se quer perder mais é tempo com aquilo que não se deve. Simples. (pelo menos em teoria).

Sinalizar alguém, ou algumas coisas, para saírem do nosso caminho é doloroso. Ninguém o faz sem pensar duas ou três vezes no assunto. Mas quase toda a gente o faz porque essas duas ou três vezes não alteram, em nada, o que já se intuía. Quem for rastreado para desaparecer não vai entendê-lo. As pessoas levam tudo a peito. (mesmo aquilo que não é para ser levado). E fazem-no nas alturas mais inconvenientes. No surprises. Não se admire, se o fizerem, diante de si, enquanto está deitado numa cama de hospital, a lutar pela vida. 

Se tiver que perder o cabelo, perca. Só nasce de volta aquilo que tiver que nascer. 
E para nascer direito, você vai ter de apará-lo muitas vezes.