sábado, 25 de março de 2017

Trinta e Oito e Meio


A Maria Ribeiro foi uma das razões pelas quais fiz as pazes com a leitura. Merece-o. Tal como nós merecemos lê-la. (devemo-nos isso). Apaixonei-me enquanto assistia a uma entrevista [dela] na televisão. Pensei: nós podíamos ser amigas. Pior que isso: nós podíamos ser amigas e darmo-nos bem. Foi amor à primeira... estória que ela contou. É raro - e difícil - tropeçar nestas químicas ocasionais que nos fazem... felizes. Depois, foi tudo muito rápido - e muito fácil. (quando a gente não vacila, é bom sinal). Eu queria muito o livro dela. Queria muito conhecê-la. E queria muito sentir com ela. E senti-la também. Melhor que tudo isso junto, só mesmo uma coisa: a Maria, para além de ser uma mulher - e uma escritora - inteligente, também é promessa-paga. Isto é, dificilmente será uma decepção para quem a lê. 

Claro que o facto do seu livro Trinta e Oito e Meio ser um conjunto de crónicas, reflexões e desabafos ganhou vantagem. Bastante. Não aprecio romances, nem livros sobre o fantástico, e muito menos dicas de auto-ajuda. As estórias que mais me cativam são as que relatam experiências empíricas na primeira pessoa. No entanto nem todos os relatos em nome próprio me convencem. Só os que ousam ser sinceros. E Maria é. Da cabeça ao coração com a simplicidade com que os brasileiros admiram - e elogiam - a vida. Poucos livros me emocionaram. O da Maria conseguiu-o. Várias vezes. Ao longo de páginas que eu desejei nunca terminarem. (fazia muito tempo que não lia um livro assim... daqueles que a gente atrasa, propositadamente, o seu fim).

Um homem, também ele muito inteligente, Gregorio Duvivier, escreveu isto na capa de Trinta e Oito e Meio: «(...) Maria fez o Brasil rir alto - semanalmente - daquele jeito que a gente só ri com amigo de infância. Ler a Maria é ganhar uma amiga de infância. Maria escreve com quem conversa, e conversa como ninguém. Este livro que você tem em mãos foi um baita sucesso num país em que livros não costumam fazer um baita sucesso. Agora você não tem mais desculpas. Maria atravessou o oceano. Isto há de ser um baita sucesso.»

Tem tudo para ser. Os relatos de uma quase quarentona sobre a imperfeição da vida são melódicos. Maria articula o que nasce desarticulado. Consegue vestir de poesia - mas sem grandes artefactos - aquilo que é menos bonito, mas que não é menos humano: o insucesso e o falhanço das relações e dos sentimentos. Trinta e Oito e Meio é uma pomada de aloe vera sob as feridas mais dolorosas da nossa existência. E se calhar foi muito por causa disso que eu gostei tanto dele. Com a Maria nós respiramos de alívio... Entramos numa espécie de psicoterapia em voz alta. Sem medos. E sem receios. É normal os filhos não gostarem dos pais. É normal não acertamos no primeiro casamento... no segundo e no terceiro. É normal querermos ter filhos. Não querermos ter filhos. Não saber se queremos ter. Tê-los e não gostar de os ter. É normal ir a caminho dos 40 com as inseguranças dos 20s. É tudo normal. Normalíssimo. Ainda bem que a Maria escreve, sem falsos moralismos, sobre a condição vulnerável de que todos somos feitos. Aliás, acho que é isso que sempre invejei nos brasileiros: o não viverem reféns de falsos moralismos. Gente sarada é outro nível!

Posso ter dado a entender que Maria é triste, mas não é. É apaixonante. Apesar de todos os ansiolíticos que toma para controlar as dores do que não controla(mos), Maria é vida. Nua, crua, bonita. Eu, que nunca visitei a cidade fetiche da autora de Trinta e Oito e Meio, diria que Maria é o rio Senna acendendo no fim do dia. «(...)E quando alguém que a gente gosta também gosta da gente é como chegar em Paris». Boa viagem.  

quinta-feira, 23 de março de 2017

Uma Noite pela Vida


Como foi noticiado na página de facebook do blogue, no passado Sábado, (dia 18), realizou-se a VI Gala de Beneficência a favor da Liga Portuguesa contra o Cancro - Núcleo Regional dos Açores. O convite para ser interveniente, e oradora, bateu-me à porta em Janeiro e... apanhou-me de surpresa. É mais ou menos fácil "falar-vos" através desta plataforma, que em boa parte eu própria controlo... Não é nada fácil falar-vos cara a cara. Mesmo que digam que a minha profissão ajuda. [ajuda muito pouco]. Apesar de ter respondido imediatamente ao convite, e afirmativamente, até ao dia pensei várias vezes em arranjar uma desculpa à última da hora e não aparecer, mas não é esse o modus operandis que me caracteriza. E portanto, mesmo que ela, (a vida), nos custe e nos resulte difícil em determinados dias, o que tem de ser tem muita força (mesmo com uma grande dose de nervos, medo e ansiedade). Afinal de contas, I've been there, done that.

Ao contrário das outras edições anteriores, em que os testemunhos de doentes oncológicos foram dados por pessoas que já tinham terminado os respectivos tratamentos, esta foi diferente. Portanto, posso dizer que a organização decidiu "inovar" escolhendo-me a mim. Por essa razão, o facto de ainda estar em tratamento, não pude participar no evento completo, mas pude - ainda que auxiliada pela minha máscara - "conversar" com o público presente. Nos dias anteriores à Gala as análises revelaram que o sistema imunitário estava fragilizado e portanto tive que entrar na minha bolha de segurança para evitar bichezas alheias. As tais limitações com as quais vamos aprendendo a (con)viver.

De qualquer das formas, e logo após o convite, decidi que a aceitá-lo nunca iria dar o meu testemunho enquanto paciente oncológico por uma simples razão: respeito. Cada experiência é uma experiência e não devemos generalizá-la. Aliás, tal como disse no jantar, uma das primeiras coisas que se aprende quando se passa muito tempo nos hospitais é a não comparar a nossa situação com a de ninguém. Pode parecer absurdo o que vos estou a dizer, lendo-o sem o contextualizar. Mas quem o sabe, sabe porque o digo. 

A segunda coisa que me parecia importante dizer ao público é o facto de, nos últimos tempos, se ter mediatizado, e muito, o cancro. Bem ou mal, não sei. Diria que mal. E de forma errada. E contra mim falo obviamente. Acho que há uma urgência das pessoas que se vêem a braços com a doença em partilhar algo com o mundo, mas partilha-se muito pouco aquilo que ela na verdade é ou representa. Na Gala referi a analogia do iceberg porque me parece bastante conveniente. Quem está de fora vê um pico, mas está longe de imaginar o que se esconde por debaixo da linha do mar. Eu sei que não se partilha tudo porque existe também a preocupação de poupar o outro aos detalhes mais duros, chocantes e inconvenientes. Eu própria já deixei de ler e seguir alguns blogues (e algumas pessoas) nas redes sociais por esse motivo. Porque me falta obviamente coragem. Mas é de coragem que esses conteúdos são feitos. O que é importante dizer, e foi isso que eu quis realçar, é que o cancro não é uma constipação. E quem o tem e está a braços com ele não tem obrigatoriamente de dar provas de sobrevivência. Querem partilhar, partilhem. Não querem, não o façam. Não há nenhuma regra de etiqueta aplicável nestas situações.

Por último, quis deixar a nota da saúde mental. É muito difícil comprovar cientificamente a importância - e influência - do nosso estado psicológico no desenvolvimento de determinadas anomalias no nosso organismo, mas eu - baseada em algumas leituras e na minha própria experiência - acredito que sim. Acredito que mente sã é corpo são. Tal como partilhei com quem estava presente no evento, antes de ficar doente, eu vivia numa bola de neve que eu própria tinha criado. Uma bola de neve de tristeza e insatisfação. A bola de neve foi crescendo, crescendo, crescendo... e um dia, sem que eu me desse conta, passou por cima de mim. Portanto, uma coisa que tomo como certa e irrefutável é que não fazermos aquilo de que gostamos e aquilo que nos torna felizes conduz-nos à doença. Portanto, evitem, o que puderem, adoecer.

Resta-me agradecer a quem esteve presente e a quem contribuiu activamente para esta causa. Tivemos lotação esgotada! E a certeza de que a LPCC - Núcleo Regional dos Açores poderá continuar a ajudar pessoas da nossa ilha como tem feito até aqui. Quero ainda deixar um bem-haja carinhoso ao grupo de pessoas que põe de pé este evento há mais de 5 anos. Que se mobiliza por uma causa que podia não ser a deles. Mas é. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Pagas tu ou pago eu?

Malta, vamos pôr a mão na consciência, sim?! Dois minutos do vosso (precioso) tempo. Não mais. [vou contar-vos uma estória que se repete muitas vezes]. Eu desloco-me todas as semanas até ao hospital da minha área de residência. São mais ou menos 25kmx2. Uma ida e uma volta... por vezes multiplicadas por mais dois ou mais três, conforme as vezes que são precisas lá ir. Enquanto doente oncológica eu tenho direitos. Como por exemplo o direito de usufruir do transporte hospitalar providenciado pelo próprio hospital. [neste caso o Hospital de Santo Espírito em Angra do Heroísmo, Ilha Terceira]. Por vontade e decisão próprias eu não o utilizo. E passo a explicar porquê.

O tratamento de quimioterapia a que estou sujeita fragiliza, e baixa, as defesas do meu sistema imunitário. Como meio de prevenção, e protecção, evito o contacto com outras pessoas nas fases mais periclitantes. É por causa disso que não me convém (nada) estar perto de pessoas que (involuntariamente) possam ser portadoras de vírus ou bactérias [todos vocês são, doentes ou não]. Mas... mesmo que eu não tivesse este pequeno pormenor acoplado ao meu estilo de vida actual, eu não utilizaria à mesma o transporte cedido pelo hospital. (até precisar é claro). Prefiro ir no meu carro. [embora às vezes seja necessária a presença de um co-piloto nos dias menos capazes]. Eu não tenho rendimentos (do trabalho dependente). Actualmente. E infelizmente a gasolina paga-se. Mas quando não houver dinheiro para a comprar, há sempre um penico onde mijar. (lembram-se dessa grande ideia empreendedora que uma dita telenovela brasileira introduziu há uns anos atrás? nada como testar).

Nos dias de tratamento, exames e consultas, eu tenho direito, também, a uma refeição e lanche dependendo do tempo que os mesmos demorem. Por norma não como aquilo, que por direito, me oferecem. É verdade, o menu hospitalar nem sempre faz as delícias (e os desejos) do doente, mas não é só (por) isso. Prefiro levar de casa. Ou comprar. [se bem que evito comer por fora pelas mesmas razões acima descritas. nunca confiando. pelo menos por agora]. E sinto-me bem assim. Contribuindo de uma forma que me parece bastante justa, prática e honesta para a economia (e poupança) de uma entidade pública. Neste caso regional. E é sobretudo sobre isso que versa o meu texto de hoje. Sobre o desperdício de recursos. E a falta de bom senso... de algumas pessoas. Não querendo dizer com isto que as minhas virtudes são maiores que as vossas. Claro que não.

Os doentes oncológicos têm direitos sim. Mas é simplesmente ridículo dizerem que, aqueles que sobrevivem, ficam com a vida feita. Nunca ouvi uma barbaridade tão absurda como esta. Absurda e... descabida.  Não ousem sequer pensar que esses direitos, que nos são atribuídos, servem para enriquecermos [até porque a riqueza é algo bastante mais caro do que o património (e os bens) materiais]. Infelizmente a desinformação e a ignorância humanas só desencadeiam generalizações baratas contra as quais temos de lutar incessantemente. Tomara que tudo fosse uma questão de tempo. Provisória como outras coisas demais. Caso seja do vosso interesse obter mais informação sobre os direitos dos doentes oncológicos podem fazê-lo aqui [Laço], aqui [Onco+] e aqui [Liga Portuguesa contra o Cancro].

Para usufruir desses direitos, o doente tem que requerer um atestado de incapacidade multi-usos atribuído, em Junta Médica, pelo Delegado de Saúde da respectiva área de residência da pessoa. [é mais ou menos nesta fase burocrática que eu me encontro]. Apesar das leis existirem... elas valem o que valem. Quem nunca teve o azar de precisar de contratar um advogado não sabe a sorte que tem... tenho dito. Faz-se de tudo com as leis. Assim. Mesmo. À laia de pegas. Dá-se-lhes sempre a volta. Torna-se flexível aquilo que não é. Acrescentam-se vírgulas. Muitas. E discrimina-se, sem qualquer pudor, e sem qualquer esforço, aqueles que por sorte, (ou azar), nasceram fora dela. O nosso sistema social é de facto... surpreendente. Se for doente oncológico, [o que eu desejo sinceramente que não seja], veja lá se escolhe uma das subsecções de doença que (já) vêem contempladas na legislação. Caso contrário, a lei, para si, não existe. Nem a lei. Nem a protecção social. 

Eu saí da faculdade em 2006. E sempre trabalhei. E sempre contribuí para a máquina do Estado Social. [na qual ainda acredito pese a todas as circunstâncias]. Dois anos no estrangeiro. Incluídos. Até 2016. Quando tive de parar por força maior. Eu não reclamo nada. A não ser aquilo a que tenho direito. Mais do que isso dispenso. De boa vontade. Dispenso os transportes. As refeições. As consultas de rotina fora da agenda, apertada, que já tenho por imposição. Enquanto me for permitido eu subsisto com o que tenho. Até se acabar. E é a respeito disso que convido todos vocês a reflectirem. Sem ressentimentos. E sem críticas. Longe disso. [agora vivemos numa época em que temos de nos justificar sobre tudo. e sobre nada. até um espirro. incontrolado]. Mas com urgências.

Nós criticamos levianamente as instituições. [e atenção... acho muito bem que o façamos quando não nos restam outras saídas]. Muitas pessoas, com vidas completamente inimagináveis, vivem dependentes delas. Umas por assumptiva necessidade. Outras porque o modus operandis se lhes colou à pele. Os recursos custam dinheiro. Custam profissionais. Custam voluntários. E custam bens e matérias-primas. Muitos. Fazer com que as estruturas resultem e sejam eficazes também é um dever nosso enquanto cidadãos. [pelo menos aqueles que estejam interessados em deixar um legado melhor aos seus filhos]. Assim sendo, queixem-se menos. [só quando tiverem dores, ok?]. 

Deixem, em primeira instância, os recursos pro bono que existem para aqueles que efectivamente precisam... e não podem, como muitos de nós, levar comida de casa ou deslocar-se num carro próprio. O Estado Social não se faz só dos descontos que cada um de nós lá enfia todos os meses. [e olhem que eu tenho razões, mais do que suficientes, para estar de candeias às avessas com os juristas todos deste país]. A sociedade, mais do que o estado, também se faz do respeito, (e discernimento), público que todos nós deveríamos ter uns pelos outros. Chega de carochinhas, sim?! Querem ajudar... Façam-se úteis.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Anjo da guarda, minha companhia

Fui ao meu primeiro funeral [depois de ter adoecido]. Não é que não tenham morrido perto de mim entretanto. Morreram muitos. Mais que os esperados. Dizer que a morte não nos assusta pode parecer ingénuo. É suposto assustar-nos. E é bom que o faça. E que o cumpra. Talvez só assim aprendamos a valorizar o que temos, entre (as) mãos, entretanto. A morte nunca me causou (grande) impressão. Confesso. Nem quando era pequena e brincava no meio de uma empresa familiar funerária. Nem agora, que me vejo obrigada a tratá-la por tu. Embora não cause impressão, é de difícil tradução. [sempre o foi]. Acho que à medida que as fotos de rostos conhecidos se vão sucedendo nas campas percebemos quão frágil a nossa existência é... E como será duro viver a perda dos que fizeram parte de nós. E das nossas estórias.

Morreu-me o meu padrinho de baptismo. [uns bons anos depois da morte da minha madrinha]. Dizem os antigos que os padrinhos de baptismo deveriam, por norma, ser sempre mais novos que os pais da criança para poderem acompanhá-la, e apoiá-la, grande parte da vida. Todos sabemos que, às vezes, não é bem assim. Que a lei da vida não existe. E que contra ela nada podemos. E que alguns nos são roubados demasiado cedo. [independentemente da sua idade]. Da mesma forma que nós também podemos deixar este plano inclinado antes do expectável. Sinto-me um bocadinho órfã, tal como os meus primos... mesmo que a minha relação com o meu tio tenha sido mais distante do que próxima. Atrevo-me a falar de um homem que não conheci bem. Mas a vida é assim. Só conhecemos das pessoas aquilo que elas deixam. E o que nos esforçamos por. Longe das minhas memórias de infância fica-me a imagem de um homem que se adaptava com facilidade à vida. E às provações. Dela derivadas. Foi assim que enfrentou as contrariedades, incluindo um AVC que o deixou dependente da ajuda, e boa vontade, de terceiros.

Há uma resiliência anónima que me comove em determinadas pessoas. E a dele tinha tanto de bonita como de dolorosa. Foi um homem que aceitou a sua condição. E que lidou com ela como pôde. E que no meio de tudo o que não era perfeito, ainda levantava a mão da janela que o separava do mundo para dar os bons dias aos vizinhos da rua. Ou para arrancar um aceno de cabeça dos netos no trajecto casa-escola. Deus levou-o quando a vida se lhe podia complicar-se. Num dia de sol. [toda a gente devia morrer em dias de sol]. E a este Deus só podemos agradecer. E nada mais. 

Dói. Inevitavelmente. A evidência natural de que não somos nada. Não temos nada. Não levamos nada. A lembrança de que tudo acaba num sopro. Curto. E entre-acabado. E que os personagens que vão fazendo parte dos mesmos palcos por onde andamos, vão começando a deixar de dividi-los connosco. É estranho. Talvez, antes, não fosse tanto. Mas hoje, com mais consciência, e sensibilidade, sei que é. E nenhum de nós poderá dizer o contrário. Fica o carinho, envergonhado, indeclarado e sem jeito de quem me dava chocolates para adoçar a vida quando nenhum de nós sabia o que ela seria. [ainda não sei]. Mas a incerteza, simples, daqueles dias era diferente da de hoje. Ficam as tardes amenas sentados no muro da casa caiada, à espera do pão quente cozido no forno de lenha. Ficam os choros aflitos dos joelhos castigados nas escadas da rua. Ficam as conversas, rápidas e divertidas, das últimas visitas fugazes. Fica o brilho no olhar de quem sabe como viveu. E fica a esperança, que nunca se perdeu, de tudo poder ter sido como não foi.

Nem todos temos a sorte de sermos amados como queremos. Ou como achamos que deveríamos ser... 
Mas, talvez sonhar com isso seja a melhor forma de nos mantermos vivos... enquanto ainda cá estamos.
Padrinho. A benção. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Em nome do pai, da mãe e dos filhos

Eu não tenho filhos. [e dizem vocês, lá vem aquela chata, imprópria, com esta conversa outra vez]. Mas podia ter. Ainda não percebi (bem) se os tratamentos oncológicos me deixaram ou não infértil. Temporariamente ou ad eternum. Honestamente, prefiro pensar que sim. Até porque a ideia de ter filhos é bastante mais assustadora do que a possibilidade de não tê-los. Esse foge-que-é-urtiga não é um sentimento camuflado pela vergonha. Não tenho medo de dizê-lo. Nem de assumi-lo. Não sei se, tendo hipótese, daria uma boa mãe. Aceitável no contexto do lar não é uma classificação feliz. Atenção. As mães não precisam de ser excepcionais. Nem de fazer o pino. Nem tão pouco o mortal atrás encarpado. As mães precisam amar. Saudavelmente. E esse pequeno detalhe ad hoc representa umas olimpíadas diárias. Pé fora. Pé dentro. Da trave. Obviamente. De qualquer das formas, apesar da maternidade me parecer uma disciplina [muito] exigente, não lhe reconheço complicações demais que a assemelhem a um bicho de sete cabeças como muitas mulheres afirmam ser. Detesto exageros. Aprendi a refreá-los recentemente.

Falar é fácil. Reclamam vocês. E com razão. Costumo evitar pôr o bedelho em teorias que não domino. É um principio. Meu. Usado com bastante rigidez. Mas... de quando em vez meto. Fundo. [o que seria da vida se não infrigíssemos umas poucas leis pessoais]. Falo muito deste tema porque é simples: faz parte da minha vida (e é bastante comum às pessoas que me rodeiam, principalmente por causa das amizades com a mesma faixa etária). À medida que se vai crescendo somos confrontados, inevitavelmente, pelas leis da vida e pelo conforto que determinadas posições (nos) trouxeram. Conforto este que nos torna seres lamentavelmente (mais) egocêntricos. E comodistas. Mas atenção. O egocentrismo em nome próprio, com a utilização devida, nem sempre é sinónimo de palas-para-os-olhos-como-os-burros. Desde que a gente não magoe o outro é usar com a respectiva moderação que se lhe recomenda. Em todo o caso eu não vou falar só do que penso. Vou falar, em concreto, de uma estória. Tudo porque defendo uma corrente qualquer filosófica (e pedagógica) que diz mais ou menos isto: os filhos não são obstáculo para nada. [sim, se os tiver posso vir a mudar de opinião. mas espero que não]. Podem cair-me em cima com as vossas opiniões contrárias. Ou com as vossas estórias. Sintam-se à vontade. 

Já ouvi queixas de várias amigas mães nessa exacta situação. Já ouvi populares, desconhecidos e anónimos, reiterar o mesmo. O não fazer qualquer coisa que desejavam muito fazer por causa dos filhos [ou em nome dos filhos]. E é por eu achar que justificar-se assim é mais ou menos como entrar num beco sem saída (ou então passar o tempo a tentar morder o rabo sem o conseguir apanhar) que vos vou contar a estória da Roberta. A Roberta era minha estetecista em Lisboa. Tinha mais ou menos a idade da minha irmã mais velha. 36 quando a conheci. Em 2012-2013 por aí. Duas filhas pequenas. Uma ainda bebé de colo. Um marido. Uma casa para pagar mais as contas adjacentes. A Roberta era licenciada em Economia, mas na verdade não gostava muito da área em que se tinha formado. Aquilo com que ela sempre sonhara era ser esteticista. Como toda a gente, boa do juízo, a Roberta hesitou, várias vezes. E como toda a gente, boa do juízo, a Roberta jogou tudo pr'ó alto. Um dia despediu-se do trabalho [fixo] e inscreveu-se na escola de estética.

A estória, narrada pela própria, durou algumas depilações. Muitas unhas. E umas massagens. Um dia perguntei-lhe: Roberta até aqui tudo bem, mas falta uma peça ao puzzle. O que é que tu fizeste para poderes tirar o curso? É que parece tudo muito bonito, mas eu suspeito que não me estás a contar tudo... Claro que ela não estava a contar tudo. Ah, você quer saber o que é que eu fiz para poder pagar as contas e sustentar as minhas filhas enquanto estudava, é isso? Era diarista. Aqui chamam de empregada de limpeza, né? A Roberta era muito inteligente. Senti automaticamente uma grande empatia por ela. Admiração. Profunda. E genuína. Que coragem!

Voltei a esta estória porque recentemente ouvi alguém dizer que não ia atrás dos seus sonhos porque tinha (agora) uma filha... E os filhos não devem justificar nem a nossa falta de coragem nem a nossa falta de carácter. Há meios que justificam os fins, mas... os filhos, os filhos não deviam justificar falhas (nossas) tão grandes. Antes pelo contrário. Os filhos deviam ser a primeira razão para irmos atrás do que nos faz feliz. Nesse mesmo dia em que a Roberta me revelou a parte mais interessante da (sua) estória, ela também me disse: eu tive medo, claro que tive, mas eu devia isso às minhas filhas, sabe... Eu devia-lhes uma mãe inteira, feliz, um bom exemplo a seguir, foi por isso que não desisti e que avancei, mesmo tremendo. Vai dar errado não... Quando você quer, você arranja forma. Arranja mesmo. Eu não tenho filhos. Volto a dizer. Mas tenho algumas limitações impostas pela minha condição. Não gosto de usar a doença para bater no ceguinho. Nem gosto muito de repetir posições. Mas tudo serve um propósito. Não me venham com tretas. Que porra é que vocês enfiaram na cabeça que não conseguem fazer por causa de serem mães? Vá, atirem. [eu sou muito boa a encontrar soluções... para os outros].

Se eu vos contar como é que ela foi parar ao salão que eu frequentava vocês não acreditam... A proprietária encontrou-a no autocarro com os livros da escola debaixo do braço. Meteu conversa, gostou e convidou-a para trabalhar. [correu riscos (pequenos) obviamente. mas apostou ainda que os tivesse]. Há estórias incríveis, não há?! A Roberta não era só uma mera esteticista. Tornou-se minha amiga. Tinha (e espero que ainda tenha) uma energia contagiante. Perto dela era impossível não sentir boas vibrações. Diarista. 

Que nome tão bonito para quem vai atrás daquilo em que nunca deixou de pensar.
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